27 agosto 2020

ESCUTA... É POESIA...


Psiu! Escuta...

Ela chegou.

Retinas alteradas;

Ouvidos atentos;

Coração acelerado;

Palavras pulsando.

 

Psiu! Escuta...

Ela se materializou.

O branco virgem do papel,

Agora, tingido de cor.

Agora, iluminada por caracteres,

A tela, antes vazia, do computador.

 

Psiu! Escuta...

Linda, mesmo que cruel.

Vibrante, mesmo que triste.

Ardilosa, mesmo que singela.

Suave, mesmo que ligeira.

 

Psiu! Vê?

É a poesia...

E num segundo,

Sem pedir licença,

Já está em você.

 

Cláudia Ferreira

27 de agosto de 2020

13 julho 2020

ÁGUAS


Sou a “arca de Noé”, na fúria do Mar Negro;
A embarcação do corajoso Ulisses, na “odisseia” de Homero;
A temida barca de Caronte, no “juízo final” de Michelangelo;
A aventureira nau de Vasco da Gama, um dos “lusíadas” de Camões.

Sou Santa Maria, Pinta e Niña, nas conquistas de Colombo;
As desbravadoras caravelas de Cabral, na baía de Todos os Santos;
As pirogas de um tronco só, na tradição dos povos ameríndios;
O trágico “navio negreiro”, no mar de Castro Alves.

Sou “la barca” latina, romântica, na voz de Luis Miguel;
O divertido “yellow submarine” dos Beatles, com todos os amigos a bordo;
A triste “chalana” de Mário Zan, na voz do pantaneiro Almir Sater;
O veleiro esperançoso, no “porto solidão” do eterno Jessé.

Sou “o barquinho” bossa-nova de Menescal e Bôscoli;
A jangada, sustento dos pescadores de Dorival Caymmi;
A saudosa “barcarola do São Francisco”, no domingo de lua de Geraldo Azevedo;
A barca da “preta, pretinha” dos Novos Baianos.

Sou o barco dos “argonautas” na tormenta de Chico Buarque;
O barco à vela, na “aquarela” de Toquinho;
As regatas do “almirante negro”, “nas águas da Guanabara”;
O “corsário” tomando de assalto os corações de Aldir Blanc e João Bosco.

Sou as chegadas e partidas, no “cais” de Milton e Ronaldo Bastos;
O “barco sem porto” de Zeca Baleiro;
A barca Rio-Niterói, no transporte diário de trabalhadores;
Os barquinhos de papel das crianças com infância.

E na contraditória canoa furada,
Sou, com Rita e Roberto,
Quem rema contra a maré.
Não acredito em mais nada!
Só não duvido da fé.


Cláudia Ferreira
13 de julho de 2020

24 junho 2020

DESEJOS EM FRASES CURTAS



Estou usando uma túnica branca.
Meus cabelos grisalhos trago presos num rabo-de-cavalo.
Parada perto de uma cachoeira, com os pés descalços, piso uma grama macia.
Levo um sorriso de paz.
Acho que morri!
Costumo brincar que, se o céu for calmo demais, prefiro o inferno.
Mas aqui, neste lugar que contemplo, eu viveria.
Paraíso estereotipado, talvez.
Barulho? Nenhum.
Sons dos pássaros, da água, do vento.
Vejo outras pessoas, todas felizes.
Não conversam, apenas sorriem umas para as outras.
Desejo que tudo isso seja real, mas acho que morri.
Aliás, sempre desejo um mundo assim.
Com pessoas felizes, simplesmente.
Se não usufruir disso, em vida, não importa!
Desejo pra vocês.
Sejam felizes!
Simplesmente...


Cláudia Ferreira
24 de junho de 2020

26 maio 2020

A PAISAGEM


 
E de repente, do alto da montanha,

A moça via tudo diferente.

Não era seu lugar, nem sua gente.

Tudo uma estranheza tamanha.

 

Onde havia casas e quintais,

Ruas asfaltadas, prédios altíssimos,

Gente, muita gente, gente demais,

E buzinas a cantar em oníssono.

 

Mais estranheza ainda, porém,

Era aquela sensação presente,

De que ela não lembrava de ninguém.

 

Se o tempo passou tão de repente

Isso ela não lembrava também,

Ou então porque deixou de ser gente.

 

 

Cláudia Ferreira

25 de maio de 2020


Tudo parece ficar ruim

É o início do fim

Dia, noite, noite, dia

Idiossincrasia

Opiniões em mim

 

Cláudia Ferreira

17 de maio de 2020

04 maio 2020

REENCONTRO (Ou coisas que a gente não sabe explicar)





Vejo minha avó materna,
Sentada num velho sofá.
Não estava só.
Algumas pessoas, em pé, ao seu lado.
Olhavam fixamente uma tela de TV.
Pergunto o que veem.
Minha avó responde:
“Não vê? Uma cachoeira!”
Aproximo-me.
Ouço um chamado,
Que não entendo de onde vem.
Atravesso a cachoeira.
Do outro lado, uso um vestido
De flores multicoloridas.
E outra vez, sou chamada a continuar.
Não tenho dúvidas por onde seguir,
Como se sempre tivesse vivido ali.
A paisagem...
Árvores frondosas...
A velha casa...
Tudo me é familiar
E me esperam para um almoço.
Alguém me entrega um envelope.
Nele, papéis que não reconheço
E uma passagem de ônibus,
Cujo destino não sei.
De repente, uma voz:
“Foge... Foge...”
Sem nem saber o porquê
Saio correndo,
Pulo por uma enorme janela
E caio na cachoeira por onde entrei.
Volto à realidade.
Era um sonho...
Um reencontro talvez.

Cláudia Ferreira
4/5/2020

01 maio 2020

OS INVISÍVEIS




Andei pensando nos trabalhadores.
Muitos não têm o que comemorar,
E até no primeiro de maio,
São obrigados a trabalhar.

Na televisão, muitos dizem:
Brasileiro é trabalhador e não desiste!
Mas para os que governam,
Muitas vezes, ele nem existe!

Há os que sempre estão ali,
E invisíveis nas ruas são.
Veem sempre o nosso lixo,
Mas os preferimos longe da nossa visão.

Há os que lavam, varrem, cozinham.
Invisíveis nos lares são,
Mas se faltam um único dia,
A rotina se torna uma confusão.

Há os que cuidam de nossas chagas,
Em infectados ambientes.
Anjos invisíveis, aliviando a dor,
Mas que também caem doentes.

Há os que correm sobre duas rodas,
No vai-e-vem de tantas necessidades.
Invisíveis nos seus capacetes,
Servem ao urgente e às vaidades.

Há os que são invisíveis durante o ano,
Lembrados só na nota final,
Sem estrutura, muitas vezes, sem salário,
Tendo que se reinventar no mundo digital.

Certamente, há tantos outros,
Que eu poderia lembrar aqui.
Porém, escolhi entre muitos,
O professor, o moto-boy, o enfermeiro, a doméstica e o gari.

E vai meu último recado
Àquele que se acha o dono do mundo
Os coveiros estão trabalhando.
Vai trabalhar, vagabundo!

Cláudia Ferreira
1º de maio de 2020

RAINHA MANCA

  RAINHA MANCA Na história romana, consta que Claudius Caesar Augustus Germanicus, Imperador de Roma, de 41 a 54 d.C., tinha, entre outras...