04 abril 2021

RESSURREIÇÃO


E eu vi a criança brincando com a mãe.

Levava com ela toda a esperança do mundo,

Renascida em solidariedade e na partilha de pães;

Renovada em sorrisos e olhares profundos.

 

E eu vi o jovem lutando vigoroso.

Levava com ele, dentro do coração, sua garra,

Renascida em cada ato vitorioso;

Renovada em cada derrapada.

 

E eu vi o velho caminhando devagarinho.

Levava com ele toda história de luta,

Renascida em cada gesto de carinho;

Renovada em cada boa conduta.

 

E eu vi o mundo tornando-se mais irmão.

Levava com ele a bandeira da paz,

Renascida das cinzas da opressão;

Renovada na certeza de que o mal, nunca mais!

 

Cláudia Ferreira

4 de abril de 2021

25 março 2021

BOMBARDEADOS

 Todas as horas,

Todos os dias.

BUM!

Pelos noticiários,

Pelas redes sociais.

BUM!

 

Imprensa,

Grupos de “zap”,

Padre,

Bispo,

Pastor,

Amigos,

Familiares.

BUM!

 

Sei! Não sei!

Confio! Não confio!

Posso! Não posso!

Faço! Não faço!

Ouço! Não ouço!

Falo! Não falo!

Acredito! Não acredito!

BUM! BUM! BUM! BUM!

 

Cabeça,

Corpo,

Coração,

Sentimentos,

Ideias,

Pensamentos,

Explodindo.

BUM! BUM! BUM! BUM!

 

Cláudia Ferreira

24 de março de 2021

 

 

A MARCHA

“300” marchando,

A troco de quê?

“300” marchando,

Sem mais nem porquê.

“300” marchando

Ferem a mim e a você.

 

“300” marchando,

De noite e de dia.

“300” marchando,

Ao sabor da nossa letargia.

“300” marchando,

Consequência da nossa apatia.

 

“300” marchando,

Enfileirados e inanimados.

“300” marchando,

Aos berros e aos brados.

“300” marchando,

De tocaia, entrincheirados.

 

300.000 mil morrendo,

A troco de quê?

300.000 mil morrendo,

Sem mais nem porquê.

300.000 mil morrendo

Ferem a mim e a você.

 

300.000 mil morrendo,

De noite e de dia.

300.000 mil morrendo,

Ao sabor da nossa letargia.

300.000 mil morrendo,

Consequência da nossa apatia.

 

300.000 mil morrendo,

Enfileirados e inanimados.

300.000 mil morrendo,

Aos berros e aos brados.

300.000 mil morrendo,

De tocaia, assassinados.

 

Marchem, soldados!

 

Cláudia Ferreira

24 de março de 2021

 

 

23 fevereiro 2021

PRÉ-MUNIÇÃO (Réquiem para um futuro próximo)

 

Eu, armado e cidadão de bem,

Fazendo minha própria filha assediada de refém.

Eu, armada e filha violada,

Exterminando meu algoz, numa emboscada.

 

Eu, armado e motorista,

Resolvendo briga de trânsito na pista.

Eu, armado e passageiro,

Disparando no condutor um tiro certeiro.

 

Eu, armado e marido,

Vingando meu orgulho ferido.

Eu, armada e mulher,

Punindo quem mal me quer.

 

Eu, armado e cristão,

Atacando outra religião.

Eu, armado e do candomblé,

Revidando o ataque à minha fé.

 

Eu, armado e adolescente,

Tirando a vida de um colega, num repente.

Eu, armado e pai ausente,

Escondendo meu ato inconsequente.

 

Eu, armado e filho drogado,

Ameaçando minha família por uns trocados.

Eu, armado e pai,

Querendo abafar os meus ais.

 

Eu, armado e homofóbico,

Matando o que, em mim, é óbvio.

Eu, armado e LGBTQI,

Calando quem não me quer por aqui.

 

Eu, armado e racista,

Apagando o que, na minha própria pele, está à vista.

Eu, armado e afrodescendente,

Revidando suas piadas indecentes.

 

Eu, armado e cidadão protegido,

Abastecendo o mercado pro bandido.

Eu, armado, infeliz e moribundo,

Num disparo, retirando-me do mundo.

 

“Requiem aeternam dona eis.”

 

Cláudia Ferreira

23 de fevereiro de 2021

10 fevereiro 2021

SEM CONFETES

                Este ano não tem Carnaval. Coisa estranha demais! Dois mil e vinte passou como um tsunami, levando esperanças e sonhos; trazendo dúvidas e receios. Tudo se resumiu ao medo do desconhecido e ao desassossego, afogando-nos numa tristeza que não sabemos explicar.

                Este ano não tem as marchinhas, os blocos, as bandinhas, a festa; não tem o gingado, a paquera, o banho de suor.

                Este ano não tem colombinas e pierrôs; não tem bate-bolas; não tem passistas; não tem porta-bandeiras e mestres-salas; não tem bateria; não tem enredo.

                Este ano não tem o samba no pé, a alegria, as luzes, a purpurina; não tem a música, o sorriso, nem a ilusão de dias melhores.

                No lugar disso tudo, surgem o tédio e o ódio encarcerados. Vão sumindo as marcas e a nossa identidade fica pra trás.

                Se o ano só começa após o Carnaval, o que faremos? Quando tiraremos a fantasia, para voltar ao trabalho e a tantas outras batalhas, se nem tivemos a chance de vesti-la?  Como encarar as cinzas que tomaram conta do mundo e parece que se perpetuarão em dois mil e vinte um, sem termos vivido o reinado de Momo, onde podemos fingir, por pelo menos três dias, que está tudo bem?


Cláudia Ferreira

10 de fevereiro de 2021

28 dezembro 2020

SEGUINDO O FLUXO

Quase fim de ano

E vou me perguntando

O que fiz e o que não fiz.

Quem eu perdoei

E quem fui incapaz de perdoar.

Quem eu magoei

E quem deixei de amar.

 

Quase fim de ano

E vou me indagando

O que quis e o que não quis.

Quem eu subestimei

E quem procurei admirar.

Por quem eu me apaixonei

E quem passei a odiar.

 

Quase fim de ano

E vou me conformando

Com os fins e os confins.

Quem eu acariciei

E quem acabei por machucar.

Quem eu enfrentei

E de quem procurei me afastar.

 

Quase fim de ano

E certezas vão se esvaindo.

A diretriz se vai por um triz.

Pensamentos que antes apoiei

Agora estão a vagar.

Frentes em que atuei

Vazias parecem estar.

 

Quase fim de ano

E vou me consentindo.

Se fui feliz ou infeliz,

As coisas que ponderei,

Melhor deixar passar.

Tudo que selecionei

É tempo de renovar.

 

 

Cláudia Ferreira

28 de dezembro de 2020


17 dezembro 2020

POEMINHA DE NATAL (1)

                      

Este ano, não terei a oração,

Feita pelo tio adorado,

Com muita emoção.

 

Não terei as risadas

E o bate-papo com os primos,

Bebendo umas geladas.

 

Não terei o sabor das comidas

Das cozinheiras da família,

Sempre muito queridas.

 

Não terei a decoração,

Feita pela irmã mais velha,

Com toda a dedicação.

 

Compartilhar cadeiras, louças e copos,

Num espaço com muitos corpos,

Para mim, tornou-se medonho!

Não estar com a família

E lembrar-me dos tempos de filha,

Deixa meu coração tristonho.

Porém, não confraternizar presencialmente,

Desta vez, não é uma opção.

É cuidado com quem amamos de montão!

 

Em minha consciência, muito pesaria

Saber que uma prima, um tio, uma tia

Foram contaminados durante o Natal.

Que tal fazermos tudo diferente,

Dando valor aos mais próximos da gente?

E assim, nem tudo será mau.

Pensando em todos, num núcleo pequeno.

Esposa, marido, filhos e o coração,

Virtualmente, em confraternização!

 

Cláudia Ferreira

17/12/2020

RAINHA MANCA

  RAINHA MANCA Na história romana, consta que Claudius Caesar Augustus Germanicus, Imperador de Roma, de 41 a 54 d.C., tinha, entre outras...